A Lagartixa, a Inteligência Artificial e a Fronteira Humana
Publicado em 16/04/2026

A Lagartixa, a Inteligência Artificial e a Fronteira Humana

Os Novos Sistemas de Inteligência Artificial não Observam o Mundo Simplesmente, Eles são Visão de Mundo

Parafraseando Heidegger (2009), os novos sistemas de inteligência artificial não observam o mundo simplesmente, eles são visão de mundo (p. 369). Porém, qual é a visão deles? Neste momento, há um fascínio tecnológico onde a fronteira entre o biológico e o digital parece cada vez mais tênue. Interage-se com aplicações de IA com as mesmas sensações de se estar diante de um ser humano dotado de conhecimento e consciência. No entanto, essa percepção é, em grande medida, uma ilusão projetiva ou uma antropomorfização; o fenômeno psicológico em que se projeta os próprios valores e outras características internas sobre outro ser, nesse caso, sobre um sistema de IA. Interpreta-se a IA como se funcionasse segundo os padrões internos humanos. O objetivo deste pequeno texto é desconstruir essa projeção, diferenciando a operação matemática da atribuição de sentido, e refletir sobre os caminhos evolutivos que ainda separam a inteligência artificial da complexidade da mente humana.

Processamento Estatístico Versus Compreensão Genuína

Diferentemente do sistema psíquico humano, que opera por meio do sentido (como proposto por Niklas Luhmann), a IA opera por meio de estruturas matemáticas rígidas, presentes nos algoritmos, que estipulam os limites para que os modelos possam criar seus parâmetros internos a partir dos dados que analisam. Ao final, interage-se não com seres conscientes, mas com fórmulas matemáticas que processam volumes massivos de dados para obter probabilidades.

Existe uma fronteira entre a execução de operações formais e a atribuição de significado. A IA funciona de forma autônoma, porém sem consciência de seu próprio processo. É o observador humano quem, ao interpretar a resposta gerada estatisticamente, projeta nela a categoria de saber. Como também se pode atribuir consciência e intenção a uma lagartixa. Em suma: a IA simula a linguagem; o humano vê nessa manipulação conhecimento.

Damásio conta que, em certa ocasião, observou uma lagartixa ágil correndo pelo terraço em perseguição a uma mosca imprudente, que insistia em voar e zumbir perigosamente ao seu redor. A lagartixa acompanhou com precisão o movimento da presa e, no momento exato, capturou-a com a língua. Seus neurônios coliculares mapearam continuamente a posição da mosca e orientaram os músculos responsáveis pelo disparo da língua quando a presa entrou em alcance. A adequação desse comportamento visuomotor ao ambiente revela um nível impressionante de adaptação (2011, p. 112).

Para ampliar ainda mais essa impressão, pode-se considerar a rápida sequência de disparos neuronais no colículo superior da lagartixa e interromper a descrição para uma reflexão. O que exatamente a lagartixa percebeu? Não há como afirmar com certeza, mas é plausível supor que tenha percebido apenas um pequeno ponto escuro em movimento, deslocando-se de forma irregular em um campo visual desprovido de outros elementos definidos. E o que a lagartixa compreendia acerca da situação? Provavelmente nada, ao menos não no sentido de conhecimento tal como é concebido pelos seres humanos (2011, p. 112).

O Equívoco das Analogias Biológicas

É comum, até mesmo no meio acadêmico, a utilização de analogias entre redes neurais artificiais e o cérebro humano. Embora pedagogicamente úteis, essas comparações podem ser enganosas. Como ainda não se decifrou com exatidão como o cérebro gera fenômenos como a criatividade e a compreensão profunda, equiparar ambos os sistemas tende a obscurecer a realidade técnica. A IA não pensa nem compreende; ela calcula. O sentido, a intenção e a interpretação permanecem como fenômenos exclusivamente humanos, ancorados em uma experiência subjetiva que a máquina não possui.

O Abismo da Eficiência Energética

A distância entre o sintético e o biológico se torna ainda mais evidente quando analisamos a eficiência operacional. O cérebro humano realiza proezas cognitivas monumentais com um consumo energético mínimo — comparável à energia obtida de uma alimentação simples, como um hambúrger. Em contrapartida, para que a IA se aproxime de tarefas similares, são necessárias infraestruturas computacionais gigantescas e um gasto energético exorbitante. Esse contraste revela que, apesar de promissores, os modelos atuais ainda carecem de uma otimização comparável à evolução biológica.

O Futuro Aponta Para um Novo Tipo de Inteligência

Reconhecer que a IA é fundamentalmente diferente da mente humana não deve ser visto como um sinal de fracasso, mas sim como uma forma de observar limites e restrições e tentar resolvê-los, abrindo espaço para melhorias ou novas tecnologias futuras. Compreender as limitações das abordagens atuais é o que permitirá estabelecer novos paradigmas e técnicas em direção a uma inteligência semelhante a humana.

O destino da IA transcende a mera substituição ou auxílio funcional; ela se posiciona como o próximo estágio do progresso da mente humana. Ao evoluir por vias distintas das biológicas, a IA não será apenas uma ferramenta externa a serviço do homem. Ela pode representar uma continuação histórica e técnica do desenvolvimento intelectual humano. O futuro aponta para um novo tipo de inteligência. A ideia central é que se está criando um novo tipo de mente, que não surgiu da natureza, mas da engenhosidade humana — e isso representa um marco histórico no desenvolvimento da inteligência, não apenas mais uma tecnologia útil.

Referencias

Imagem: criada por Genini conforme proposta do autor.

Damásio, A. R. (2011). E o cérebro criou o homem. Companhia das letras.

Heidegger, M. (2009). Introdução à filosofia. Martins Fontes.

Pereira, C. J. (2025). La antropomorfización de las máquinas: ¿Existe la inteligencia artificial? Revista Científica de UCES, 30(1), 1–36. https://dspace.uces.edu.ar/handle/123456789/7411.